quinta-feira, 26 de maio de 2016

Sozinho na madrugada



Passavam das duas da manhã quando o choro de um homem cansado cortou o meio fio da madrugada. Pulsava no silêncio mórbido do sono de muitos. Mas não nos dele. Os olhos perdidos, focados em nada, à luz calma da vela, pensava em tudo que o cercava, tentava mastigar os eventos de sua vida e procurar entre eles o que o fazia tão triste, o que deixava sua alma tão torturada. Sabe, o vazio da madrugada lhe vazia tão bem, ele se sentia livre, confortável. O peso nos ombros que lhe afligia durante o dia, sumia à noite e dava lugar a calmaria. As vezes ao sorriso. Mas isso não acontecia a algum tempo. Ele não conseguia sorrir naquela noite, tudo que lhe passava a mente eram as escolhas ruins que havia feito durante o dia. Se perguntava o significado de liberdade. Não a liberdade mostrada nos comerciais de televisão, onde homens musculosos dirigem com caminhonetas por florestas selvagens. Não desse tipo. A verdadeira, a que nos foi dada por direito, a liberdade que vem incrustada no âmago do nosso ser. Ela, tão negligenciada por nós, feita prisioneira por uma moral criada pelos maus pra nós controlar. Vergonha. Medo de não atender as expectativas deles. Era isso. Isso que o atormentava. Como iria ser livre, se antes mesmo de nascer, já estava acorrentado aos prazeres de outros? Como ele queria estar preocupado com o futebol ou com o cenário político, ao invés de se meter com questões que não devem ser importunadas. Mas isso fazia parte dele, parte de sua razão. Cansaço. Suspiro. Um estralo das juntas ali. Os olhos já iam ficando pesados, a garrafa de vinho já fazia efeito. Era mais fácil se entregar a Morfeus e esperar que ele o agraciasse com outra realidade, pois da que ele vivi agora não mais quer fazer parte.


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